sábado, 16 de maio de 2009

GREEN STAR ... Wanessa entre os artistas admirados por Gilberto Gil

Entrevista: Gilberto Gil, CANTOR E COMPOSITOR

Zero Hora – A turnê atual, sem o compromisso de repartir o tempo com as responsabilidades do Ministério da Cultura, está mais fácil de se realizar?

Gilberto Gil – Não ter ocupações e preocupações extramúsica, além, é claro, das normais de todo dia, é um alívio. Tenho descansado mais e pensado mais na música, mas quando aceitei ser ministro estava certo de que pouco poderia fazer como artista. Assim foi. Passei quase seis anos sem compor, cantando e tocando muito pouco, dedicando a maior parte da minha energia e do meu tempo às atividades governamentais. O trabalho no Ministério e com a música foram duas coisas indissociáveis na vida de qualquer pessoa que exerce duas ou mais funções diferentes. A influência faz parte de quem somos e o que faremos depende também dessas experiências. O interesse pelas novas tecnologias, por exemplo, sempre foi um tema constante na minha carreira artística e contribuiu para as minhas opiniões a respeito dos Creative Commons (projeto que disponibiliza licenças flexíveis para obras intelectuais), convergência, inclusão digital, esse último tão importante para o trabalho no Ministério. O trabalho no Ministério me possibilitou ter andado tanto por aí e ter visto tanta coisa por ângulo tão diverso, ter feito ou tentado fazer coisas que dizem respeito à vida das pessoas de forma tão diferente da música... Tudo isso influencia. Como dizia o poeta Fernando Pessoa, TUDO VALE A PENA SE A ALMA NAO É PEQUENA. Espero que a minha alma seja de bom tamanho e que possa aproveitar da experiência que eu vivi como ministro pra tudo que eu venha a fazer na vida.

ZH – Conceitos como “fusão de ritmos” e “derrubada de fronteiras entre estilos musicais” são hoje cada vez mais difundidos no pop. Você se sente em parte responsável por essa tendência?

Gil – Acredito que o meu trabalho tenha estimulado as discussões em torno dessas fusões. Ou inspirado, talvez. A MPB, por exemplo, sempre foi e continua sendo um reflexo fulgurante do mosaico que somos. Representa, assim como o nosso Carnaval e o nosso futebol, os melhores traços da nossa alma barroca dos trópicos. Temos uma das mais exuberantes músicas populares do mundo, festejada em toda parte, reconhecida em sua beleza e seu encanto – e que tem ajudado, junto com a música americana e caribenha, a que muitos outros países concebam também a sua música como mais diversa, eclética e abrangente.

ZH – Você já encontrou na internet apropriações – vídeos caseiros, samplers, covers – de sua própria obra?

Gil – Não só já encontrei como estimulei, com a minha equipe, esse tipo de cruzamento. No início deste ano, no hotsite da turnê (www.bandalargacordel.com.br), foi lançado o concurso Youtubeoquê!, convidando o público a criar e postar versões das minhas músicas feitas em versões para a web, numa espécie de ‘videoquê virtual’. Foi bem divertido.

ZH – Como é o momento de escolha das canções para um novo espetáculo? É difícil encontrar lugar para as canções de um novo disco à medida em que o repertório é cada vez maior e mais variado?

Gil – As apresentações em turnês são, obviamente, guiadas pelas canções novas, estão vinculadas a um lançamento. Algumas canções, porém – e eu poderia citar aqui Palco, Realce, Tempo Rei, entre muitas outras –, sempre acabam encontrando um espacinho no roteiro.

ZH – Quem são os artistas que você mais admira na atualidade – especialmente entre os da nova geração?

Gil – Todos os novos são admiráveis. Nos sambas, nos baiões, nos rocks, nos funks, nos axés, nos sertanejos, nos regionais, nos híbridos totais, todos são revelações, cheguem ou não às televisões. Aliás, as novas formas de acesso e consumo, os meios não convencionais, a internet, vêm possibilitando novas revelações por segundo. Destacar nomes não dá conta da tarefa de reconhecimento da extensão dessa realidade, mas eu posso dizer que ouço muita coisa em geral e nada muito em particular. Gosto dos velhos, Caetano, Chico, Bethânia, Rita, Nana, Elba. Gosto dos mais novos, Lulu, Paralamas, Timbalada, Zeca Pagodinho, Marisa, Ivete. E gente mais nova ainda, como Seu Jorge, Wanessa Camargo, enfim, muita gente!

ZH – Quais os próximos planos quanto a turnês, gravações e lançamentos?

Gil – Acredito que o Banda Larga ainda gere um DVD. É um ciclo que já está se fechando, no entanto. Em julho, começo nova turnê pela Europa, como tradicionalmente faço no meio do ano, há mais de 30 anos já. Um novo projeto deve ser gestado a partir daí. De qualquer forma, as coisas vão saindo, são consequências do fazer. Quem sabe um novo disco com Ben Jor um dia desses?!!!

Fonte: ZERO HORA.com